7 de dezembro de 2015

O ACESSO À JUSTIÇA “É UMA OBRIGAÇÃO CONSTITUCIONAL DO ESTADO”,

Em entrevista concedida ao Projeto “Monitorização dos Tribunais” o Presidente da LGDH Dr. Augusto Mário da Silva considera que o acesso à Justiça é uma obrigação constitucional.

Liga Guineense dos Direitos Humanos (LGDH) – Sr. Presidente, a Guiné-Bissau é um dos países que labuta para fazer afirmar a justiça. Mas, primeiramente, um cidadão tem que ter facilidades de aceder a justiça. Ora, na sua perspectiva, o que significa o acesso à justiça?

Dr. Augusto Mário da Silva, Presidente da LGDH- significa que os cidadãos devem ter possibilidades de recorrer aos fóruns judiciais, quando os seus direitos ou interesses estiverem a ser violados. Ou seja, significa que o estado deve criar condições básicas para que os cidadãos possam aceder aos tribunais. A justiça enquanto um bem fundamental e fins do estado, por isso também, há que salientar a necessidade do estado reduzir custos dos impostos de justiça de maneira a permitir que todos tenham acesso a ela. Em suma, aquilo que estamos assistir é uma denegação da justiça.

LGDH - fatores de custos da justiça e condições de trabalho, não fazem parte dos aspetos que uma verdadeira justiça requer…

Dr. Augusto Mário - Estão a quem das nossas expetativas, porque, desde logo, citamos o custo de proposituras de uma ação nos tribunais. Hoje em dia, o tribunal é muito caro para o comum de um cidadão. Senão vejamos: 

Só para dar entrada a um processo, o cidadão é obrigado a pagar 2 mil francos cfa, de selos, para cada página. Imaginemos um processo de Dez ou Vinte páginas, sem contar com preparos iniciais, que são calculados em torno de 10% sobre valor da causa, é algo muito caro. Tudo isso acaba por tonar a justiça cara para o cidadão comum.

Outra situação, tem a ver com a distância que separa os cidadãos dos tribunais, algo desmotivante, por acarretar algum custo de transporte. Por exemplo, quem quiser meter um processo no tribunal de Buba, que é competente para cobrir as ilhas, é obrigado seguir até Bissau para depois deslocar-se a Buba. Mas, há um outro elemento importante é a questão de constituir um advogado. Deve haver um patrocínio oficioso que é suportado pelo estado aos cidadãos que não tenham condição.   
 
Nós estamos num pais onde o salário mínimo ronda em 30 mil Fcfa. Feitas as contas, a população acabaria por não ter acesso a justiça, por causa do elevado preço de custas de processo. Concluímos que a justiça é mais para as pessoas com o rendimento médio.
Dr. Augusto Mário da Silva Presidente da LGDH
 Outra situação, tem a ver com a distância que separa os cidadãos dos tribunais, algo desmotivante, por acarretar algum custo de transporte. Por exemplo, quem quiser meter um processo no tribunal de Buba, que é competente para cobrir as ilhas, é obrigado seguir até Bissau para depois deslocar-se a Buba. Mas, há um outro elemento importante é a questão de constituir um advogado. Deve haver um patrocínio oficioso que é suportado pelo estado aos cidadãos que não tenham condição.    
Nós estamos num pais onde o salário mínimo ronda em 30 mil Fcfa. Feitas as contas, a população acabaria por não ter acesso a justiça, por causa do elevado preço de custas de processo. Concluímos que a justiça é mais para as pessoas com o rendimento médio.  

LGDH - até que ponto esta situação incentiva a justiça privada?

Dr. Augusto Mário - essa situação contribui para a impunidade, uma vez que os infratores continuam a perpetrar a violação. E também essa situação propicia a justiça com as mãos próprias. A tal dificuldade de acesso à justiça facilita, por outro lado, o recurso a outros mecanismos não convencionais, como é o caso da justiça tradicional. Isso sempre pode contribuir para a realização da justiça privada e como consequências finais poderá despoletar em conflitos intercomunitários. Ora, tudo isso não vai contribuir para a coesão e paz social.

LGDH - Dr., quais são os mecanismos para inverter este quadro?

Dr. Augusto Mário- É só respeitar a constituição. Nela está determinada que ninguém pode ser denegado a justiça por insuficiência financeira, entre outros os motivos que mencionei. 

Uma chamada de atenção! Eu diria que o estado deve repensar o mapa do pais, correlação a criação de estruturas de justiça, isso para aproximar o cidadão da justiça e criar condições técnicas e materiais, nomeadamente infraestruturas.

Enfim, fala-se também da necessidade de criar tribunais de família e de menor por todas regiões do país.




PROJECTO “ MONITORIZAÇÃO DOS TRIBUNAIS AUSCULTA DIFERENTES INTERVENIENTES NO PROCESSO DE PROMOÇÃO DO ACESSO À JUSTIÇA NA GUINÉ-BISSAU

A justiça tem constituído um problema sério para a sociedade guineense. Em várias ocasiões, o seu papel é chamado a razão, baseando, sobretudo, nas respostas sobre determinadas questões que dizem respeito ao cidadão comum e passando por um quadro mais aberto e abrangente.

Da sua credibilização efectiva, perante os guineenses, olhando na sua desejada eficácia, que se traduz no acesso fácil e resposta rápida, a Liga Guineense dos Direitos Humanos (LGDH), com o apoio financeiro da União Europeia, através do Projecto de Apoio aos Actores Não Estatais (PAANE), desenvolve várias acções de sensibilização, que se consubstanciam em várias ações entre as quais a realização de entrevistas com diferentes atores e intervenientes no sector. 

Assim, o Projecto " Monitorização dos Tribunais teve uma entrevista com o Dr. Luís Peti técnico de um dos Centros de Acesso à Justiça em Bissau.


Liga Guineense dos Direitos Humanos (LGDH) – Do ponto de vista jurídico, como podemos definir o Acesso à Justiça?

Dr. Luís Peti, Vice Coordenador do Gabinete de Informação e Consulta Jurídica – o acesso à justiça é dar possibilidade as pessoas a terem acesso às instituições judiciárias competentes para administrar à justiça. E é nestas instituições, onde o cidadão é orientado sobre os direitos que lhe assiste. 

LGDH - na sua apreciação, acha que tem havido justiça aos cidadãos no país?
Dr. Luís Peti- existe sim, mas não de forma desejada pela população. Isto porque uma das queixas sobre a inexistência da justiça, tem a ver com a demora dos processos. Este fato justifica-se com trâmites normais que um processo deve seguir para conhecer a sentença. Contudo, em muitos casos, não se justifica tanta demora para determinar uma sentença.

Ora, para ser sincero, eu diria que a justiça tem tido seus obstáculos, nomeadamente a lentidão, fator de corrupção, falta de desconhecimento das leis pelos cidadãos. E mais, outros associam-se a falta de condições para o funcionamento dos tribunais, designadamente, desde gabinetes de juízes, esquadras de polícias até aos centros de detenções.  


                               Dr. Lúis Peti Vice-coordenador do Centro de Acesso à Justiça

LGDH - qual seria solução, então, para garantir uma justiça reconhecida pela população?

Dr. Luís Peti - justiça, enquanto espelho de um país, eu diria que a solução seria contornar todos os males que anotei, ou seja, isto passaria pela criação de condições de trabalho e de combate as más práticas que informam o sistema judiciário guineense.

LGDH – espreitando um pouco a sua experiência nos Centros de Acesso à Justiça, pode-nos apontar casos notórios com que os cidadãos são confrontados, sobretudo os de Bissau, enquanto capital do país?

Dr. Luís Peti- em maior parte, os frequentes casos de motivos de queixas, prendem-se com ofensas corporais, violação sexual no género e crianças e casos ligados a disputas de propriedades. É um quadro sombrio e preocupante que deve ser superado. Nestes esforços, vale dizer que temos tido apoio de RENLUV, uma das instituições vocacionada às questões dos direitos humanos e esquadras locais. Outrossim, porque não dizer que desencorajar atos de violação dos direitos humanos na nossa sociedade não se resume apenas no seguimento de acesso à justiça. Há que se contar mais com o apoio das diferentes organizações de respectivas comunidades a nível nacional, sobretudo, mediante as campanhas de sensibilização.